Bem, é só isso.
Uma das maiores lições que venho aprendendo nos últimos anos é que a gente sempre acaba "mordendo a língua" quando estabelecemos um conceito "imutável" sobre algo ou alguém.
Na minha encarnação anterior, eu jurei pra mim mesma que jamais iria assistir um reality show. No entanto, não só não perco nenhum Big Brother, como também me tornei admiradora de Alan e Grazi, participantes da edição deste ano. E nem preciso dizer que irei assistir a versão 2005 de "O Aprendiz" nacional, embora eu não nutra qualquer sentimento de admiração pelo Roberto Justus. É que neste programa especificamente, eu fico imaginando como é que seria o meu desempenho. Hilário.
Mas, voltando àquela questão de rever (pre)conceitos: alguns, claro, são arraigados: eu nunca irei nutrir qualquer simpatia por Paulo Maluf, Alexandre Pires, José Serra, Pink ex-BBB5, George W.Bush, Marcelinho Carioca e outras figurinhas do mesmo calibre. É antipatia visceral.
Só que mesmo estas antipatias viscerais caem por terra. Hoje, por exemplo, eu me surpreendi com uma pessoa por quem sempre nutri um sentimento não tão alentador. Hoje tive a prova que este sentimento não era recíproco, e pensei: pôxa, será que eu não teria economizado energia ruim se não tivesse sido tão radical? Será que não deixei passar boas oportunidades por insistir em classificar algumas pessoas como inimigas?
Ah, essa mania de ver pêlo em ovo.
Percebo que estou ficando velha quando vejo que certos vocábulos, que nós considerávamos palavrões cabeludíssimos, agora são livremente pronunciados por cordas vocais de todas as idades, regiões e classes sociais...
Um exemplo sintomático: "bicha". Lembro-me que na 7a. série era apaixonada por um garoto, digamos que meio afeminado.
Cega de paixão, eu relevava todas as evidências. Eu iria me casar com ele, é claro! Até que um belo dia uma colega aproximou-se com um olhar grave e me disse:
- Preciso contar algo sério para você.
- O quê???
- Não posso falar aqui. Vamos lá no canto do páteo.
Acompanhei minha amiga, muito apreensiva. Ela parou, e disse, como se estivesse revelando o terceiro segredo de Fátima:
- Sabe o Fulano?
- O que tem ele? -perguntei, já nervosa.
Ela respondeu, já ruborizada, e falando em baixíssimo volume:
- Ele é... b i c h a !!!
Foi minha vez de ficar vermelha:
- O queeeeeee???? B i c h a ???
- Pois é... B i c h a !!!!
Gente, eu fiquei ruborizada, envergonhada, sem saber onde enfiar minha cara. Aquela palavra era maldita! Ninguém poderia sobreviver à sua articulação. B i c h a era algo impuro, diabólico, blasfêmico!
E ele era b i c h a. Que coisa. Hoje deve ser veado. Que coisa.
Oh, belos e ingênuos tempos.
Não adianta. Existem algumas paixões que resistem ao tempo, e não há nada que você possa fazer. Só aceitar.
Hoje eu peguei o Abbey Road pra ouvir no carro e de repente descobri que esse disco simplesmente tem tudo a ver com minha vida, com minha própria formação musical.
Devo ter ouvido este disco pela primeira vez há muito tempo, há uns 25 anos. Lembro que fiquei fascinada com a capa mostrando aqueles quatro atravessando a rua, cabeludíssimos, com roupas espalhafatosas, sendo que um deles ainda fumava e estava descalço!
Achei tão cool. E este álbum abriu caminho pra que eu conhecesse todos os outros discos daqueles quatro. Além de despertar em mim o sonho de atravessar aquela zebra crossing, o que aconteceu em 1998. Até hoje, um dos grandes momentos da minha vida.
Por isso, não pude ter outra reação a não ser chorar ao ouvir Octupus' Garden, uma canção composta por Ringo Starr que conta sobre um lugar submarino onde podemos dançar e cantar o tempo todo, e que ninguém diz o que tem que se fazer.
Eu ainda sou uma criança que quer conhecer o Jardim do Polvo. Ainda bem.
Do UOL:
Daslu cadastra clientes que chegam a pé à nova loja
da Redação
Eduardo Knapp
A Daslu colocou uma funcionária para cadastrar as pessoas que chegam andando à sua nova loja,
informa a coluna de Mônica Bergamo na "Folha de S.Paulo".
A entrada é permitida, mas só depois que o visitante fornece nome, telefone, CPF, RG, endereço e e-mail. O preenchimento do cadastro passou a ser obrigatório desde sábado.
Segundo uma funcionária, "favelados" haviam tentado entrar na loja. Eles eram, na verdade, estudantes do MSU (Movimento dos Sem-Universidade).
Quer dizer então, que no mundo maravilhoso da Daslu, estudantes são "favelados". E como os verdadeiros favelados seriam classificados pelas dasluzetes? Vermes?
Nossa, esse mundinho das sacoleiras de luxo é mesmo algo incrível. Alices no país das maravilhas. Ou breguice à la Las Vegas travestida de coisa chiquetésima?
Argh.
- Hoje começa o inverno, e eu quero que ele me aqueça, especialmente minhas finanças combalidíssimas.
- Michel Platini, um dos meus "ídalos" dos naos 80, hj entra gloriosamente para o rol dos cinquentões. Pena que Monsieur Platini não tem mais a mesma pegada. O tempo passa, ditatorial.
- Dilma Roussef foi designada por Lula para o cargo de Chefe da Casa Civil. Boa sorte pra ela.
- Ao que tudo indica, o casal de ex-BBBs Alan e Grazi irão posar nus para revistas (ele, na G Magazine; ela, na Playboy). Nada mais au naturel.
- Mais uma vez eu não ganhei na loteria.
... e eu preciso dar os toques finais de um produto que a empresa está desenvolvendo.
Pela primeira vez, posso dizer que gosto do que eu faço.
Já é alguma coisa.
Agora é o Financial Times que ataca: "Crise política poderá transformar Lula um presidente decorativo".
Cacete, ele errou. Mas será que errou tanto quanto os outros que os antecederam? FHC, naquela empáfia enjoativa travestida de intelectualidade esnobe, era um ser "perfeito"? Duvido muito.
O problema é que nós não queríamos que Lula errasse. Não, depois de tantas tentativas de chegar ao poder.
O poder corrompe, mas também traz solidão. E solidão é o que Lula deve estar sentindo agora.
Fala aí, Paul:
"All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?"
(Eleanor Rigby, Lennon & McCartney, 1966)
|
||||
|
||||